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quinta-feira, 28 de maio de 2026

maio 28, 2026 - No comments

O ser humano e a ferida com a sociedade

 "Gostaria de saber o porquê a humanidade vai de mal a pior", vi essa pergunta no chat de uma live sobre O Caminho do Iniciado. Uma pergunta disparada para místicos ou interessados no assunto, sendo a locutora uma pessoa que acredita que a única explicação para isso se encontra apenas em assuntos de cunho espiritual, dada a dificuldade de responder a questão.

Não tenho a intenção de dar uma resposta completamente assertiva à pergunta, mas proponho um caminho para nos aproximarmos do que poderia explicar a decadência  cada vez mais perceptível da humanidade.

É verdade: você está no mundo e quanto mais obtém informações sobre o que está acontecendo por aí, mais horrorizado fica. O grande fluxo de informações que também aumentou depois da globalização dá a impressão de que quanto mais o tempo passa, mais a humanidade acumula um karma irreparável, seja com a natureza ou com Deus, todo mundo sente a responsabilidade nas costas. Você pode sentir por exemplo que não tem feito o bastante para salvar a natureza, pode sentir que nunca consegue fugir de seus pecados, ou de alguma forma tenta se convencer de que você é uma ótima pessoa. Como eu vi um dia, as pessoas culpam a religião por ser o grande fator de degeneração da humanidade preferem dizer "minha religião é ser uma boa pessoa". No fim, intimamente a maioria das pessoas ainda se sentem em divida com os fatores externos ou com sua própria moral. O hacker Elliot, do Mr. Robot, por exemplo, acredita que toda pessoa tem um podre e sempre descobre através dos seus hacks. Toda pessoa ou está contribuindo para maldade do mundo ou está se retirando dela não fazendo nada. E existe aquela pequena parcela comprometida em mudar. 

A verdade é que a barbárie e a violência é intrínseca à humanidade desde os primórdios da civilização. Antes da ética, moral ou regras e leis, tudo era resolvido com morte e violência. "Se você me faz mal, ameaça minha vida, eu tenho o direito de te matar ou te fazer mal de volta." Leis e afins surgem como modo de civilização para conter a barbárie. A própria criação de Deus e sua moral correspondente ao modo de vida cristão não permite que a violência exista, é tido como errado, pecaminoso, você cria divida com Deus e corre o risco de ir para o inferno. Tem um lugar para as pessoas ruins, então seja certo, faça x e você vai para o céu. Faça y e vá para o inferno. 

Com todos os processos civilizatórios a humanidade não pode expressar de forma alguma a violência e a barbárie que já existe nela desde quando éramos semelhantes à animais. 

Você já assistiu o episódio do Expurgo do Rick e Morty no qual eles visitam um planeta que prega a paz mundial e dedicam um dia à barbárie ? Costuma ter violência e morte em massa. A mesma ideia do filme The Purge. Ou aquele experimento artístico que a moça permite que faça o que quiser com ela, ela ficaria parada lá por x horas e o resultado foi algo assustador pelo que fizeram com ela ?

Você já viu notícias de padres estupradores? 

A barbárie, violência ou qualquer coisa que classificamos como "o mundo indo de mal a pior" continua existindo mesmo com qualquer tentativa de empurrar isso pra fora. E estão tentando, realmente estão tentando. Mas muitos já viram que é impossível, e então cria-se formas de velar isso. 

A sensação de estar tudo indo muito mal é porque estamos desvelando isso pelo conhecimento, informação e etc. Muitas pessoas não assistem jornal porque ficam tristes, perturbadas e sem ideia do que fazer com isso. Cria-se empatia com vítimas, medo de ser a vítima, medo de alguém querido ser a vítima. 

Diante da repressão da violência, um ato de violência é visto como punível com violência de volta. Quando alguém querido é vítima, queremos que o opressor pague pela mesma moeda. Gritamos por justiça e o máximo que chega a ser justiça é ele ser preso, mas no íntimo desejamos tudo de ruim, a morte e as mais penosas situações. 

Isso é uma expressão da barbárie novamente, a que todos estão tentando evitar. Raras, muito raras são as pessoas que vão desejar que a pessoa se liberte do seu demônio e aceite o "amor de deus" em seu coração. 

Vide o que fizeram com o Lázaro quando o encontraram, muitas pessoas sentiram empatia pelas vítimas ou sentiram muito medo. Morte na certa, porque era o mínimo que ele merecia. Consultei muitas pessoas e ouvi delas que se sentiram estranhas ao ver o corpo desumanizado do cara sendo carregado como se fosse um pacote de bosta. Mas não puderam fazer nada ante a sua estranheza porque a maioria das pessoas estavam certas de que o correto era desumaniza-lo mesmo. À ele foi atribuído toda a maldade do ser humano, chagaram a acreditar que ele fazia parte de algum culto do que se chama pejorativamente de "macumba", revelando claramente o que a sociedade considera como mal ou diabólico: religiões de matriz africana. Não só isso, você viu que atacaram ferozmente um cara parecido com o Lázaro e não era ele? 

De qualquer maneira, ele não é alguém a ser defendido, mas explica claramente como a sociedade só espera um bode expiatório surgir para derramar tudo aquilo que eles passaram tempo demais reprimindo. Posso citar também a moça que foi morta por acusação de bruxaria e ela era inocente. Não houve tempo de passar por um julgamento. E se o cara morto, não fosse o Lázaro? Como a sociedade carregaria essa culpa?

Eu acho que já provei meu ponto: em qualquer oportunidade as pessoas liberam seus demônios, se sentem justificadas, logo não precisam pagar as contas com Deus ou com qualquer ideia de bondade que exista nela. 

JUSTIFICATIVA. Isso ocorre em quase todos os casos de grandes barbáries humanas: nazismo, caça às Bruxas, terrorismo, ditatura, perseguição religiosa, roubo, assassinato.

A sociedade moderna já não se preocupa em esconder a barbárie, ela só precisa fazer parte de um grupo de crenças que justifique a violência e a torne aceitável. Isso sempre existiu, é porque hoje está escrachado. 

E é isso, a barbárie é isso. Ela existe. Mas não demos um lugar pra ela, ela simplesmente não está incluída nos planos de deus. 

Diferente de muitas culturas antigas, em que divindades representavam aspectos humanos às vezes perturbadores. 

E então partimos para o ponto da ferida que o ser humano carrega em relação à sociedade. A de que ele tem que pagar pelo mundo ser assim enquanto ele está "tentando ser uma pessoa boa." A sensação de não saber o que fazer e de que ele está condenado a viver em um mundo violento e terrível. Ele se reconhece como eterno pecador e escuta sempre que TODOS pecam e que a sérias chances de ele ir pro inferno. Sério, falam isso para criancinhas; elas sentem medo de qualquer coisa a levarem para o inferno.

Mas você já virou e observou a maldade e a violência dentro de você? O que você faz com ela? Espera uma oportunidade para expressá-las sem culpa por ter uma justificativa? Quando aquela pessoa errou com você, você se sente no direito de condená-la aos piores infernos ou a abençoa para que ela melhore e nunca mais fira ninguém?

Você deseja que ela repita todos os erros com a outra pessoa que ela vier a se relacionar só para que tudo em volta dela seja desgraça e ela nunca mais seja feliz? Você torce pela involução das pessoas que te cercam por motivos competitivos? Você se sente tão desgraçado que torce pela infelicidade dos outros? A felicidade dos outros te provoca inveja? Sensação de injustiça? Mesmo que não queira e esteja tentando fazer de tudo para esses sentimentos sujos irem embora e afirma, superficialmente, que "deseja o bem", sendo que no fundo ainda se sente injustiçado?


INJUSTIÇA. JUSTIFICATIVA.


Parabéns, você está percebendo que você é um SER HUMANO. 

E como ser humano, ir de encontro à sua sombra é inevitável em algum momento da vida. Ora, talvez você nunca tenha nem ouvido falar disso, na sua infância você deve ter sido ensinado a reprimir sua sombra ou punido por demonstrar. Faz parte de aprender a absorver a moral da sociedade que já foi estabelecida muito antes de você nascer. Mas não, isso não é uma justificativa para deixar o ego dominar e expressar suas merdas quando é conveniente e dizer depois que não teve controle. De qualquer jeito você vai ter que pagar por isso também quando vim as consequências.


Então se você fica se questionando porquê o mundo vai de mal a pior, não tem nada que você possa fazer para arrancar a maldade do planeta, nem se você fosse deus, você estaria conseguindo fazer isso sem matar toda a humanidade, então que deus bom vc seria?


Já viu aquela frase "seja a mudança que espera ver no mundo". Então, parece clichê, mas é verdade. O mais aproximado de mudar o mundo que você pode fazer é mudar a si mesmo e tentar promover alguma mudança na sua comunidade. Muita gente tentando fazer isso cria seitas que difundem seus ideais tortos que eles acreditam que o mundo todo devia seguir. Então realmente a única esperança é o autoconhecimento e a ligação com princípios mais elevados. Em outras palavras, buscar ser bom e dizer "minha religião é ser uma pessoa boa" ainda não é o suficiente. Lidar com as partes mais obscuras de você talvez seja o caminho para se chegar a uma certa "bondade". E ainda sim, quando você atingir esse estado, provavelmente você não vai se considerar uma pessoa boa. Porque você vai estar ciente de todas as suas partes ruins, e vai ter que lidar com elas de uma forma extremamente equilibrada junto com suas partes boas. E você vai perceber... que ninguém é tão bom assim - até porque a comparação não é o caminho. Às vezes quem a gente acredita que seja realmente uma pessoa boa, é aquela que faz coisas incríveis no meio social e chega em casa e é um escroto com a esposa e os filhos. Ou até mesmo o contrário: aquele cara que eu achava que era um escroto acabou de doar não sei quantos mil para uma instituição de crianças sem lar? Não sabia que ele podia fazer esse tipo de coisa. Pois é, ninguém é inteiramente mal ou bom. Mas acredito que podemos ajustar nossos passos no mundo para ferir menos as pessoas e a natureza, sem exatamente deixar também que essas coisas nos firam.

Estar no mundo é uma constante luta entre várias forças. É a busca constante pelo equilíbrio, vai chegar momentos em que você não sabe o que deve fazer, questões morais, ideológicas, relacionais. E de alguma forma você vai ter que descobrir, e até você está perfeito haverão tantos erros. Essa é a maior condição humana que estamos presos - a do erro. Numa sociedade que não tolera erros. Engraçado, mas é a verdade. O caminho para ser uma boa pessoa é o mais espinhoso que já conheci - e eu em estou tentando ser, só estou tentando me conhecer e ser uma versão mais equilibrada de mim mesmo. 


maio 28, 2026 - No comments

Quem se alimenta da sua culpa?

         Toda vez que eu tento, eu caio. A disciplina não é para mim? 


    É com essas palavras que eu começo esse texto, que está inserido numa profunda agonia social que nos leva a duvidar do nosso valor constantemente. E quem atribui valor para nós se não nós mesmos? 

    Depois de um detox de redes sociais advindo de uma crise emocional que tive há alguns meses atrás, me pego dedicando a maior parte das minhas horas para redes sociais, plataformas de vídeos, streamings e todas essas atividades passivas de recompensa rápida. Ao mesmo tempo que consumo isso, passo por diversos conteúdos que me dizem: "se quer a barriga perfeita, é assim que eu faço, conheça o meu método"; "você está fazendo exercício x errado, para fazer certo, baixe meu PDF"; "a viagem perfeita é para tal lugar, basta fazer isso e aquilo", "com quantos anos você descobriu que faz tal coisa errado?", "você precisa ir para show x, y, z - suas bandas preferidas virão todas esse ano para o Brasil". Todas essas coisas me impelem a ação, mas todas as estratégias empregadas nesses posts e na rede social como um todo visam me prender o máximo de horas possíveis e é escrachado como mostram estar realmente fazendo isso. Todas essas coisas me impelem a ação porque eu preciso mudar para ser, para conseguir ser, para conseguir fazer e realizar. Queremos engolir todas as coisas do mundo e não temos dinheiro nem disposição para isso.

    O capitalismo tomou mais uma faceta com a tecnologia. Sua natureza plástica se moldou às redes sociais, que em si, já possuem o propósito de vender mais do que conectar, não importando se precisa afastar as pessoas pra isso. Na verdade, a nossa falta é a locomotiva de todo o sistema. E não existem falhas quando o assunto é apontar as falhas do cidadão, porque a cada necessidade há um mercado para isso. Embora você se exercite, que é o certo a se fazer, você não está fazendo direito. Descobri até que se exercitar uma parte do dia enquanto você permanece sentado trabalhando nos outros turnos é errado. E o pior, isso está cientificamente correto, você é considerado um sedentário ativo. No fim das contas, sua atividade física diária é o suficiente para fortalecer o sistema cardiorrespiratório, força muscular e saúde mental. Mas não é nisso que vão focar, né? Embora você faça terapia, a explosão de mal estar que você sente devido a quantidade de informações consumidas por dia em redes sociais e a dedicação acima do normal ao trabalho farão essas horas de terapia não serem suficientes também. 

    Você está fazendo o que é certo, como manda o script. Você está lutando todos os dias contra si mesmo e a sua mente para tentar ser melhor. Mas isso nunca vai ser suficiente dentro do capitalismo pós-moderno. Assim como o sistema nunca vai ser o suficiente para te valorizar e abarcar suas demandas. Mas quem tem o controle de como pensamos não vai deixar que você pense e fale sobre isso, a única ordem é comprar e gastar. Seu bem estar não é interessante. Sua culpa sim. Por isso, sugiro refletir melhor toda vez que pensar "eu não sou tão bonita assim", ou "eu não sou tão forte assim". Porque os próximos passos depois desse pensamento sempre vão beneficiar quem mais quer te ver mal e quem não vai pagar as contas das suas sessões de terapia depois. Nosso vazio sempre vai ser a fonte de renda de quem está por cima, e quem controla tudo isso nem é a pessoa mais bonita do mundo, provavelmente é um velho branco, feio e careca. Quanto mais você se sentir feio, quanto mais se sentir burro e quanto mais envergonhado você for de si mesmo, mais você serve de alimento. Nada nunca foi por acaso e provavelmente tudo isso que você sente foi debatido e conversado numa mesa em uma sala de algum prédio em algum lugar. 

    É hora de buscar alternativas e estratégias para sobreviver nesse sistema que nos adoece tanto. E nem sempre a resposta é se isolar (na verdade, o isolamento é a própria arma). Podemos nos fazer de filtros, nem tudo pode entrar. Nós, em parte, temos o controle do algoritmo, basta clicar nos três pontinhos e escolher "não tenho interesse nisso". Não precisamos consumir tudo que nos servem. É como quando vamos a um rodízio de pizza: a todo momento inúmeros garçons nos servem com sabores diferentes, se aceitarmos tudo, teremos uma montanha de pizza que nosso estômago não vai conseguir processar. Todo mundo sabe que chega uma hora que temos que recusar as pizzas, pois não aguentamos mais. Acredito que no mundo das ideias isso também deve acontecer. É pelo fato de aceitarmos tudo, que gastamos tanto, nos degradamos tanto e ficamos tão cansados. É por isso que perdemos o sono de noite. Nossa mente enche tal como nossa barriga, mas continuamos aceitando porque não conseguimos lidar com isso com remédios para azia e idas ao banheiro. No campo mental, tudo é uma metáfora: passar mal são as crises emocionais, evacuar é reproduzir falas de outrem (quando não falar merda por aí) e o remédio para azia é comprar.     

    Embora você faça sua 1 hora de academia e isso seja bom para o seu sistema vascular, também precisamos exercitar a saída desse lugar de peão. Isso também é saúde. Questionemos, não sejamos tão facilmente manipuláveis. Vamos nos acumular também de nossa própria ética e decidir o que é bom para nós. Não deixemos isso na mão de outras pessoas. Em outras palavras, não sejamos massa de manobra. Escolha o que você quer fazer com essa tal liberdade.









quarta-feira, 29 de setembro de 2021

setembro 29, 2021 - ,, No comments

RENASCER O CERRADO

 



O inverno levou minhas últimas folhas 
A seca quebrou meus últimos galhos 
A fogo queimou meu duro tronco 
E a natureza me deixou em retalhos 
Mesmo assim estou de pé aqui 
E minha imagem pinta lindos quadros 

Pensei que a essa não sobreviveria 
Toda seca corro o risco de ser levada 
Mas ainda  nascem algumas flores 
E sinto de novo minha alma renovada 
Até que novamente tudo se queima 
Mas ainda resisto e continuo intocada

Pois sou nascida no cerrado 
E do cerrado não posso deixar de ser 
Tenho que buscar água muito longe 
Para me nutrir, me cuidar e não morrer 
E parece que as coisas aqui não morrem 
A não ser as coisas que precisam renascer 

...




- Celebrando os dias difíceis do Inverno no cerrado, 
que possui uma delicada beleza, observavel apenas
por poucos olhos, aqueles que não estão cansados
o suficiente para ainda contemplar os ciclos.

Feliz primavera!



quinta-feira, 9 de setembro de 2021

setembro 09, 2021 - ,, No comments

Vencer o Abismo

 Conexão com o Ar e Lúcifer


A magia é a manipulação do vísivel através do invisível. Compreender o invísivel talvez seja a primeira parte do trabalho, mas não é nada quando não se sabe transformar essas correntes energéticas em matéria pura, moldando sua realidade, transformando-a. O poder de mudança na própria vida, a lapidação da verdadeira vontade, o sacrifício do ego, todas essas coisas, são ganhos através do autoconhecimento e são a base da magia e do poder da bruxa. Muitas delas vêm através da vivência e a consciência divina conectada ao seu lugar de origem. Agora, por que tão difícil? Estamos sempre tendo que vencer nós mesmos para alcançar nosso equilíbrio espiritual e exercer com plenitude aquilo que a Bruxa é por natureza: uma caminhante de dois mundos; a ponte entre esse e o outro. 

Dito isso, entende-se que a necessidade de criar uma ponte é revelada pela existência do abismo. 

A dificuldade em se conectar com a mente divina e permitir livre expressão nesse mundo é uma manifestação da cisão feita por Lúcifer em sua queda. 

A meses estou me perguntando: por que compreendo tudo, entendo e internalizo os mistérios, mas na hora de por em prática tudo que aprendo aqui não sei como fazê-lo?

Por que estudo sistemas de magia, aprendo sobre ervas e pedras e tudo o mais e na hora de fazer um feitiço que seja ele não tem uma liga? É o típico "pensa, mas não age", "pensa o mundo, mas não realiza", entendo, entendo, entendo... mas onde estão essas verdades nos meus atos? 

Eu compreendi a cisão como causa mór desse processo. É o abismo.

Onde a gente vence nossas dificuldades maiores em prol de criar uma ponte até os planos divinos e aí está a Magnum Opus. 

É isso que Lúcifer espera de nós e não só espera, como nos força. Nos força a sermos livres, desde que descobrimos que somos seus filhos e que em nossas veias corre o sangue divino dos anjos. 

Embora pai cruel, o que nos liga a ele seria unicamente o amor, que advém do sangue. Ele é o alquimista e nós os elementos brutos os quais ele separa a grosseria de nossos corpos da sutileza de nossa alma e nos eleva. Sem a forja, sem a lapidação, sem essas marteladas, nada poderíamos ser. Vencer a nós mesmos está aí; implica buscar internamente o que há de mais puro e verdadeiro, nossa essência que compartilhamos com o Todo. Logo a conexão com o Grande Vínculo, logo... o amor.

Amor é água, amor é o que induz os corpos a se atraírem e a criarem. Tamanho poder não poderia ser deixado nas mãos de qualquer um, mas a divindade é benevolente e doa amor por meio da Grande Teia, para assim a existência poder se fazer com plenitude. Então os que não tem capacidade para compreender tal poder se tornam marionetes dessa força, revelando seu lado obscuro - e assim é todas as coisas. Trevas e Luz, Caos e Ordem. Eis a cisão entre elas quando Lúcifer caiu. Eis o abismo. 

O amor como matéria essencial do universo, jamais poderá ser controlado, mas apenas direcionado. O amor para aqueles que compreendem sua expressão será então a potencialidade de vencer o abismo e realizar a Magum Opus e co-criar o universo ao lado de Lúcifer. Elevando-se para a plenitude divina, no seu trono acima do altíssimo. Superar a consciência dos anjos. 

O amor me atrai para Lúcifer e Lúcifer me vê e me escuta através da atração que sente por mim ao me escutar. E o amor sendo água, possibilita a mente, o espirito e o corpo trabalharem para erguer a ponte até Ele. O amor me casa com Lúcifer; eu, uma de suas muitas esposas. Criamos a ponte, criamos um mundo, criamos a linhagem, criamos a corrente.

E se eu me esquecer?

lembre-se desse dia...

Quando eu untei meus intrumentos com lágrimas, lembrando das que eu derrubei com dor e das que derramei com amor, tendo em mente que é também por amor que Lúcifer me liberta e que esse é o Mistério da Grande Obra.

E tudo ficará bem... 




quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

fevereiro 03, 2021 - No comments

O que aprendi com Clube da Luta

 

 

Um dia eu fui alguém que estive espiritualizada demais buscando elevação mental e pensei que isso se tratava de abandonar a vida terrena. E eu descobri que a espiritualidade nesse sentido não se trata de fugir das coisas mundanas, mas por meio delas consegui desvendar a dádiva que elas possuem. Clube da Luta é uma grande discussão sobre a normalidade e o fundo do poço, sobre o consumismo e sobre ideais que não podem ser vendidos, sobre o fazer e trabalhar fora do sistema dominante, sobre ser o filho rejeitado de Deus. Enquanto muitas pessoas estão buscando se purificar da toxicidade do mundo, a filosofia de Clube da Luta é que é justamente aceitando o pior que se pode realmente ter alguma ascensão. E não funciona assim? A ascensão verdadeira não é uma escalada ao topo do mundo, mas sim ao mais fundo dele, que é ir justamente ao fundo de nós mesmos?

Podemos encarar isso como a aceitação da verdade? Essa que sempre é caracterizada como “dura”, que machuca e dói. A existência de Tyler Durden é um constante desafio para qualquer pessoa que cruze seu caminho. A parte consciente desse alter ego, o protagonista do filme ali, era uma pessoa que já tinha desistido e se rendido a sua limitação. Ele se perdeu de si mesmo, é uma pessoa que se conhece superficialmente e que infelizmente se rendeu ao “que tipo de mesa me define como pessoa?”

Ele realmente achou que a única coisa que poderia resolver seus problemas era chorar no peito de alguém, se abrir para a positividade do mundo e as meditações guiadas com pacientes terminais de câncer. De fato, foi a única forma que ele achou para extravasar sentimentos, mas ele nunca pertenceu ali, porque aquela não era a realidade dele e não foi feita para ele. De qualquer maneira, a assimilação dele com a energia de pessoas moribundas é muito real, até porque a sua insônia o faz ficar “entre mundos”, sem ter a sensação de vida. A questão é que esse sempre foi um escapismo para algo que ele nunca conseguiu entender e mudar em sua vida. Por isso ele agarra isso com unhas e dentes diante da ameaça de ser exposto, quando Marla Singer aparece.

Há muitas teorias de que Marla Singer é também uma personalidade dele, de que ela não é real, mas sim igual ao Tyler. Sendo real ou não, Marla também tem uma função importante: ela é mais uma moribunda que abarca as projeções dele. Ela é o que ele rejeita em si mesmo. Ela perturba o senso de segurança e controle do protagonista, até ele perder esse senso por si só.

Diante da ilusão de estar sendo curado, recuperando seu sono e tendo mais saúde, ele está na verdade cada vez mais morto.  E a partir dessa morte é que é possível que o Tyler assuma de vez a sua consciência, que antes agia surdino na noite, sendo sempre negado inconscientemente. Quanto mais nossas rejeições vão sendo jogadas ao fundo, mais chances temos de agir igualzinho o protagonista do filme, criando alguém que faça por nós, que aja por nós. Não é atoa que o Tyler é um “alter ego”. EGO.  Um outro eu, que não necessariamente é como nós, mas no fundo é sim. Muitos, na perspectiva do filme, vão chamar isso de esquizofrenia, e de fato em termos psicológicos o é. Mas como é arte, quem assiste produz sempre um sentido diferente do que quem fez quis passar, e também vai produzir um sentido diferente de outros que assistiram. Pra mim, esse processo é a sombra. Aquilo que tanto rejeitamos, mas que somos muito próximos de ser. A projeção das nossas rejeições no outro. O nosso não ser, sendo. A nossa hipocrisia diária de apontar um dedo para a frente, sem perceber que os três outros dedos da sua mão estão apontando para você de volta. Mas algo me leva a pensar que Tyler não seria só a projeção de suas rejeições, mas também um deus interior que o guia à limpeza de sua toxicidade mundana justamente levando-o a encarar tais defeitos. 

Dessa bagunça interna do personagem, nasceu Tyler, que o matou para que pudesse assumir a direção da sua vida. Tyler pra mim nunca habitou somente dentro dele. O Tyler é um alter ego coletivo, tanto que ele consegue montar um exército e ser o mestre para cada um daqueles homens. O personagem protagonista é só uma representação da coletividade, da como a crise moderna afeta o indivíduo. Fica naquele jogo de IN e OUT, o que acontece dentro e como isso reverbera no externo. Por isso o filme como todo é genial, porque ele vai abarcar as demandas de muita gente que assiste.

E acho que o grande ponto alto do filme não é exatamente como Tyler se criou, mas o que ele faz. Ele simplesmente conduz um homem à sua destruição, atendendo à uma necessidade desse mesmo homem. É o impulso de morte e transformação que o guia, é uma jornada iniciática.  Ele recruta as massas, porque a dor desse homem é uma dor conjunta. É por isso que eles se reúnem para se baterem. A porrada voluntária, de quem dá e quem recebe, é um meio de expressão da pressão que eles sentem em subir na vida, em ter uma vida sob os moldes capitalistas e vender suas almas para os negócios. A porrada é o próprio lapidar do ferreiro, que esculpe homens mais fortes. Tyler representa o ódio, a necessidade de revolução, a aceitação da verdade. Ele é o renegado, o habitante das sombras, o que permanece nas margens.

O que mais me toca nesse filme não é exatamente a criação do Clube da Luta e a propagação do mesmo, mas sim a relação intima que o protagonista tem com o Tyler. É por meio dos diálogos e da forma de viver que ele assume que é possível perceber como ele precisava só de um empurrão pra ser tudo que sempre quis ser. Mas a lapidação da alma desse homem é cheia de desafios e ampliação de horizontes. Quando você sai do centro e passa a ver tudo distante, além do que era possível enxergar em sua rotina, novas percepções afloram.

Então esse homem passa da posse de tudo, para a posse do nada. Ele simplesmente joga tudo fora pelo que ele criou. É o próprio despir-se na jornada. E o tempo todo pensamos que ele só está sendo influenciado, mas quando descobrimos que Tyler é ele, é possível entender que essa é uma necessidade de alma. É uma verdadeira vontade. Isso tudo vai além de possuir coisas materiais. E é essa uma grande lição que tenho com esse filme. O perder tudo se trata do processo de descontrução para abrir espaço ao que realmente importa. Nos apegamos a coisas e pessoas que não nos fazem bem de modo que é quase impossível deixá-las. “As coisas que você possui, possuem você”, e essas coisas que "possuimos" nos escravizam. E no tempo em que todos pregam liberdade, esse filme traz o que ninguém quer ver: que ser livre é muito mais doloroso do que parece, e se trata mais de perdas do que ganhos.

Muito desse processo é dificultado pela necessidade desenfreada de controle, e a maior parte do filme fala disso sem que percebamos exatamente. Ele é um homem que tenta o tempo todo estar no controle, mas ele nunca o teve de fato, já que nem sobre seu sono ele consegue impor algum tipo de regra. Ter poder e controle sobre as coisas a sua volta é algo que muitas pessoas estão tentando conseguir, mas é isso que as pessoas tanto falam que é ilusório: "o controle é uma ilusão". Por isso as tentantivas de controlar o mundo a sua volta são tão falhas, porque o controle real só pode ser aplicado sobre si mesmo.

 

Nessa cena ele percebeu que o projeto Clube da Luta se tornou o Projeto Destruição e que ele perdeu o controle total da coisa. Tyler tira as mãos do volante e ele tenta desesperadamente tomar a condução do carro, como se estivesse fazendo na sua própria vida, mas não acontece. Essa cena do acidente de carro é só uma metáfora pro controle. A cada cena que transcorre no filme ele vai perdendo mais e mais o controle sobre si mesmo. A transformação é maravilhosa e, por se encontrar nesse estado de ascensão, ele pensa que está com todo o controle das situações. Mas como o próprio Tyler fala pra ele: “você está tendo uma iluminação precoce”. Quando ele diz que é patético ele tentar segurar o volante, é porque ele sabe, antes mesmo de nós e antes mesmo do protagonista, que ele já perdeu totalmente o controle da sua vida. A condução para o fundo do poço é encarar a verdade interna e a verdade externa. Clube da Luta sempre está fazendo isso, falando sobre a sociedade ao mesmo tempo que fala dos processos individuais. Criticando sempre ambos. Reformulando sempre ambos.

O enfrentamento da verdade, a perda do controle e das posses, tudo isso implica dor. A dor junto com tantos outros sentimentos “negativos” dá vasão para o escapismo. Não somos ensinados a lidar com a dor, simplesmente precisamos nos virar. E em Clube da Luta há mais um espaço para isso, na cena a qual eu qualifico como uma das melhores cenas e em especial a minha preferida:

Quando Tyler Durden joga solda cáustica na mão do nosso não nomeado protagonista.

Essa cena é importante porque ela materializa a forma que a humanidade lida com a dor. A fuga da dor é real. Temos, a nossa disposição, milhares de formas de executar essa fuga. O mundo é um constante “ignore isso e tudo ficará bem”, porque achamos que a dor é inútil, que ela simplesmente não deve ser sentida. E então Tyler vem novamente para fazer o papel de diabo e te coloca em uma situação que você não consegue fugir mais disso. Sentir dor é inevitável!

O caminho do autodesenvolvimento está cheio do “primeiro, você precisa desistir”. Eu percebi que a desistência é o encerramento de ciclos e comportamentos que não cabem nas situações atuais que a vida traz. É o deixar ir; abandonar velhos conceitos que não servem mais. É parar de resistir ao processo de lapidação. A aceitação da verdade implica em um abandono do apego à ilusão. O momento que ele joga a solda caustica na mão é só mais uma metáfora das situações dolorosas as quais costumamos fugir. A dor não faz parte do processo espiritual de luz e positividade que pregam por aí. O autocontrole talvez se trate mais de você se conhecer e manter a consciência firme em momentos de crise do que manter controle sobre os desdobramentos dos seus atos. Primeiro, você precisa parar de segurar, precisa parar de se debater. É só aí  que vem uma transformação real.



AMÉN



quarta-feira, 16 de setembro de 2020

setembro 16, 2020 - No comments

I have reasons enough to believe in fate

 

Eu tenho razões suficientes para acreditar que o destino permeia a vida de todos e tenho a impressão de que todos sabem disso também em algum nível. 

Lá está a Roda da Fortuna, identificada em várias culturas e interpretada em vários mitos, nos quais a Roda é controlada por uma mente superior, por fiandeiras ou por deuses. Mas no geral, entende-se que a Roda da Vida é uma vontade desconhecida do Universo na busca por equilibrio, para que os eventos, que já não são por acaso, possam ser dirigidos em uma realidade na qual cada um faz o seu papel. 

A discussão do "Destino" é complicada no meio filosófico e principalmente no meio acadêmico, que é demasiado racional para acreditar que realmente exista um fluxo de acontecimentos pré-determinados na existência e todos pendem muito para a discussão do livre arbítrio. Ao meu ver, a existência do destino não anula o livre arbítrio, já que somos pequenas partes de um Todo Universal e, levando em conta que determinadas coisas precisam acontecer, é nossa função escolher, de livre e espontânea vontade, como iremos executar o papel que nos cabe nessa Ordem. 

De fato, a maioria dos seres humanos ainda estão tentando responder a pergunta de quem eles realmente são, e por isso o Destino se trata também da alquimia da alma, ou seja, a transformação ou maturação do que o ser é. O próprio autoconhecimento.

O destino é uma necessidade cega, quase sempre desconhecida, que domina o indivíduo, levando-o a se estabelecer em um papel adequado para ele no universo em que vive. É como se fosse a adaptação perfeita de cada um ao seu devido lugar ou à sua função no mundo, compreendendo que cada ser é feito para fazer aquilo que faz. 

Cumprir o destino está quase diretamente ligado ao autoconhecimento. Ao fazer a alquimia interna, é possível realizar a alquimia externa e acompanhar o fluxo criativo do universo. O que isso quer dizer, em essência, é "conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses."

E todo dia eu compreendo mais sobre o que é o Destino, embora eu tenha tentado racionalizar apenas uma única vez, há alguns meses, ainda com o encanto de alguém que teve uma epifania que explicava vários acontecimentos da sua vida. Agora sinto que é tão óbvio e que só olhei para algo que sempre esteve ali. Ao compartilhar esse assunto com meus irmãos da Arte, me senti tola por chegar a essa conclusão tão tarde, mas talvez eu não tenha sabido transmitir o que isso significava pra mim de verdade naquele dia.

Quando reconheci que certas coisas na minha vida estavam esperando que eu me trabalhasse para que pudesse assumi-las, tudo pareceu muito mais importante. E o conhecimento desse Destino me trouxe a vontade de trabalhar nessas coisas com prazer, já que se tudo que vivi convergiu para esse momento, significa que é exatamente esse o papel mais adequado pra mim.  Ter o conhecimento teórico e usá-lo para explicar o que é o Destino na verdade pode não ser o suficiente para a compreensão real desse conceito, já que talvez ele só venha a ser entendido por meio da mudança de percepção. Já viu aquela frase "aceite o seu destino" ou "embrace your destiny"? então, simplesmente eu o compreendo e o aceito, só isso muda todo o curso da minha vida. Como posso não ficar feliz com isso mesmo que ainda haja dores e tristezas no meu caminho? Também faz parte aceitar que nem tudo é luz. Meu pai espiritual diz que eu tenho que dar o melhor em tudo que eu faço e então, como eu poderia, depois de entender meu destino e abraça-lo, não me empolgar diante de tal função? 

Sinto de verdade não ter tido a capacidade de demonstrar o que eu estava sentindo aos meus irmãos naquele dia. Ainda arranquei uma pequena gargalhada dos mesmos quando disse que o Destino era dos mesmos produtores do "nada acontece por acaso". Mas esse é um assunto que não os empolga mais e, tudo bem. Não espero estar empolgada com algo tão simples ou óbvio daqui alguns anos. Não há como olhar para uma mesma coisa ainda com a inocência de uma criança quando você se acostuma com essa verdade. Mas espero também nunca esquecer de onde vim e pra onde eu vou, mesmo que o futuro seja uma icógnita.