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Pós-modernidade, capitalismo tardío e pós-verdade epistêmica
Quanto mais eu sei, menos eu sei,
Quando achei que estava chegando perto da verdade
Na verdade eu me afastei.
Mas o que é a realidade, o que é real?
Se o real agora é um eco, ilusório e viral?
Antes duvidar era um gesto inteligente,
questionar o mundo era ser consciente.
Hoje, crer virou trincheira,
e duvidar é ser chamado de tolo na primeira.
Nossas impressões viraram tudo o que temos,
mas são espelhos quebrados do que vemos.
Repetidas milhões de vezes, distorcidas,
manufaturadas, vendidas, consumidas.
E me pergunto:
será que minha própria verdade
não é também miragem, vaidade?
Antes a metafísica brincava com o impossível,
sonhos, pós morte, o invisível.
Agora, toda crença se isola em mim,
um altar pequeno, um começo sem fim.
Duvidar virou ofensa,
pensar virou ameaça,
e a liberdade de expressão é faca
que corta quem nela confia e não disfarça.
Calar-se parece seguro,
num mundo onde tudo é muro,
onde palavras ficam presas
em posts, manchetes, mesas,
alimentando vermes do caos,
que fazem do erro festival,
do tropeço espetáculo,
da dor, capital.
Discutir é inútil, dizem,
consenso é utopia, mentem.
Discordamos sem escuta,
cada opinião vira uma luta.
Cada um embala sua ideia
como um filho de areia,
frágil, mas intocável,
mesmo sendo questionável.
Vivemos a pós-verdade,
a pós-modernidade,
talvez o pós-apocalipse
da própria humanidade.
A filosofia morre em silêncio,
a comunhão no distanciamento.
Imperam os templos do isolamento,
as seitas do ressentimento.
O desespero por algo em que crer
vira porta para quem só quer nos vender,
esmolando espírito e sentido,
no mercado do não vivido.
Capitalismo tardio, ardiloso,
entrelaça-se ao que é sagrado e perigoso,
controla nossos gestos, vontades, crenças,
transforma vidas em mercadorias densas.
Nada é como antes, é verdade,
mas tudo é sombra daquela realidade
que ainda vive nos escombros do que fomos,
um mundo acabado que ainda habitamos.


