quinta-feira, 28 de maio de 2026

maio 28, 2026 - No comments

O ser humano e a ferida com a sociedade

 "Gostaria de saber o porquê a humanidade vai de mal a pior", vi essa pergunta no chat de uma live sobre O Caminho do Iniciado. Uma pergunta disparada para místicos ou interessados no assunto, sendo a locutora uma pessoa que acredita que a única explicação para isso se encontra apenas em assuntos de cunho espiritual, dada a dificuldade de responder a questão.

Não tenho a intenção de dar uma resposta completamente assertiva à pergunta, mas proponho um caminho para nos aproximarmos do que poderia explicar a decadência  cada vez mais perceptível da humanidade.

É verdade: você está no mundo e quanto mais obtém informações sobre o que está acontecendo por aí, mais horrorizado fica. O grande fluxo de informações que também aumentou depois da globalização dá a impressão de que quanto mais o tempo passa, mais a humanidade acumula um karma irreparável, seja com a natureza ou com Deus, todo mundo sente a responsabilidade nas costas. Você pode sentir por exemplo que não tem feito o bastante para salvar a natureza, pode sentir que nunca consegue fugir de seus pecados, ou de alguma forma tenta se convencer de que você é uma ótima pessoa. Como eu vi um dia, as pessoas culpam a religião por ser o grande fator de degeneração da humanidade preferem dizer "minha religião é ser uma boa pessoa". No fim, intimamente a maioria das pessoas ainda se sentem em divida com os fatores externos ou com sua própria moral. O hacker Elliot, do Mr. Robot, por exemplo, acredita que toda pessoa tem um podre e sempre descobre através dos seus hacks. Toda pessoa ou está contribuindo para maldade do mundo ou está se retirando dela não fazendo nada. E existe aquela pequena parcela comprometida em mudar. 

A verdade é que a barbárie e a violência é intrínseca à humanidade desde os primórdios da civilização. Antes da ética, moral ou regras e leis, tudo era resolvido com morte e violência. "Se você me faz mal, ameaça minha vida, eu tenho o direito de te matar ou te fazer mal de volta." Leis e afins surgem como modo de civilização para conter a barbárie. A própria criação de Deus e sua moral correspondente ao modo de vida cristão não permite que a violência exista, é tido como errado, pecaminoso, você cria divida com Deus e corre o risco de ir para o inferno. Tem um lugar para as pessoas ruins, então seja certo, faça x e você vai para o céu. Faça y e vá para o inferno. 

Com todos os processos civilizatórios a humanidade não pode expressar de forma alguma a violência e a barbárie que já existe nela desde quando éramos semelhantes à animais. 

Você já assistiu o episódio do Expurgo do Rick e Morty no qual eles visitam um planeta que prega a paz mundial e dedicam um dia à barbárie ? Costuma ter violência e morte em massa. A mesma ideia do filme The Purge. Ou aquele experimento artístico que a moça permite que faça o que quiser com ela, ela ficaria parada lá por x horas e o resultado foi algo assustador pelo que fizeram com ela ?

Você já viu notícias de padres estupradores? 

A barbárie, violência ou qualquer coisa que classificamos como "o mundo indo de mal a pior" continua existindo mesmo com qualquer tentativa de empurrar isso pra fora. E estão tentando, realmente estão tentando. Mas muitos já viram que é impossível, e então cria-se formas de velar isso. 

A sensação de estar tudo indo muito mal é porque estamos desvelando isso pelo conhecimento, informação e etc. Muitas pessoas não assistem jornal porque ficam tristes, perturbadas e sem ideia do que fazer com isso. Cria-se empatia com vítimas, medo de ser a vítima, medo de alguém querido ser a vítima. 

Diante da repressão da violência, um ato de violência é visto como punível com violência de volta. Quando alguém querido é vítima, queremos que o opressor pague pela mesma moeda. Gritamos por justiça e o máximo que chega a ser justiça é ele ser preso, mas no íntimo desejamos tudo de ruim, a morte e as mais penosas situações. 

Isso é uma expressão da barbárie novamente, a que todos estão tentando evitar. Raras, muito raras são as pessoas que vão desejar que a pessoa se liberte do seu demônio e aceite o "amor de deus" em seu coração. 

Vide o que fizeram com o Lázaro quando o encontraram, muitas pessoas sentiram empatia pelas vítimas ou sentiram muito medo. Morte na certa, porque era o mínimo que ele merecia. Consultei muitas pessoas e ouvi delas que se sentiram estranhas ao ver o corpo desumanizado do cara sendo carregado como se fosse um pacote de bosta. Mas não puderam fazer nada ante a sua estranheza porque a maioria das pessoas estavam certas de que o correto era desumaniza-lo mesmo. À ele foi atribuído toda a maldade do ser humano, chagaram a acreditar que ele fazia parte de algum culto do que se chama pejorativamente de "macumba", revelando claramente o que a sociedade considera como mal ou diabólico: religiões de matriz africana. Não só isso, você viu que atacaram ferozmente um cara parecido com o Lázaro e não era ele? 

De qualquer maneira, ele não é alguém a ser defendido, mas explica claramente como a sociedade só espera um bode expiatório surgir para derramar tudo aquilo que eles passaram tempo demais reprimindo. Posso citar também a moça que foi morta por acusação de bruxaria e ela era inocente. Não houve tempo de passar por um julgamento. E se o cara morto, não fosse o Lázaro? Como a sociedade carregaria essa culpa?

Eu acho que já provei meu ponto: em qualquer oportunidade as pessoas liberam seus demônios, se sentem justificadas, logo não precisam pagar as contas com Deus ou com qualquer ideia de bondade que exista nela. 

JUSTIFICATIVA. Isso ocorre em quase todos os casos de grandes barbáries humanas: nazismo, caça às Bruxas, terrorismo, ditatura, perseguição religiosa, roubo, assassinato.

A sociedade moderna já não se preocupa em esconder a barbárie, ela só precisa fazer parte de um grupo de crenças que justifique a violência e a torne aceitável. Isso sempre existiu, é porque hoje está escrachado. 

E é isso, a barbárie é isso. Ela existe. Mas não demos um lugar pra ela, ela simplesmente não está incluída nos planos de deus. 

Diferente de muitas culturas antigas, em que divindades representavam aspectos humanos às vezes perturbadores. 

E então partimos para o ponto da ferida que o ser humano carrega em relação à sociedade. A de que ele tem que pagar pelo mundo ser assim enquanto ele está "tentando ser uma pessoa boa." A sensação de não saber o que fazer e de que ele está condenado a viver em um mundo violento e terrível. Ele se reconhece como eterno pecador e escuta sempre que TODOS pecam e que a sérias chances de ele ir pro inferno. Sério, falam isso para criancinhas; elas sentem medo de qualquer coisa a levarem para o inferno.

Mas você já virou e observou a maldade e a violência dentro de você? O que você faz com ela? Espera uma oportunidade para expressá-las sem culpa por ter uma justificativa? Quando aquela pessoa errou com você, você se sente no direito de condená-la aos piores infernos ou a abençoa para que ela melhore e nunca mais fira ninguém?

Você deseja que ela repita todos os erros com a outra pessoa que ela vier a se relacionar só para que tudo em volta dela seja desgraça e ela nunca mais seja feliz? Você torce pela involução das pessoas que te cercam por motivos competitivos? Você se sente tão desgraçado que torce pela infelicidade dos outros? A felicidade dos outros te provoca inveja? Sensação de injustiça? Mesmo que não queira e esteja tentando fazer de tudo para esses sentimentos sujos irem embora e afirma, superficialmente, que "deseja o bem", sendo que no fundo ainda se sente injustiçado?


INJUSTIÇA. JUSTIFICATIVA.


Parabéns, você está percebendo que você é um SER HUMANO. 

E como ser humano, ir de encontro à sua sombra é inevitável em algum momento da vida. Ora, talvez você nunca tenha nem ouvido falar disso, na sua infância você deve ter sido ensinado a reprimir sua sombra ou punido por demonstrar. Faz parte de aprender a absorver a moral da sociedade que já foi estabelecida muito antes de você nascer. Mas não, isso não é uma justificativa para deixar o ego dominar e expressar suas merdas quando é conveniente e dizer depois que não teve controle. De qualquer jeito você vai ter que pagar por isso também quando vim as consequências.


Então se você fica se questionando porquê o mundo vai de mal a pior, não tem nada que você possa fazer para arrancar a maldade do planeta, nem se você fosse deus, você estaria conseguindo fazer isso sem matar toda a humanidade, então que deus bom vc seria?


Já viu aquela frase "seja a mudança que espera ver no mundo". Então, parece clichê, mas é verdade. O mais aproximado de mudar o mundo que você pode fazer é mudar a si mesmo e tentar promover alguma mudança na sua comunidade. Muita gente tentando fazer isso cria seitas que difundem seus ideais tortos que eles acreditam que o mundo todo devia seguir. Então realmente a única esperança é o autoconhecimento e a ligação com princípios mais elevados. Em outras palavras, buscar ser bom e dizer "minha religião é ser uma pessoa boa" ainda não é o suficiente. Lidar com as partes mais obscuras de você talvez seja o caminho para se chegar a uma certa "bondade". E ainda sim, quando você atingir esse estado, provavelmente você não vai se considerar uma pessoa boa. Porque você vai estar ciente de todas as suas partes ruins, e vai ter que lidar com elas de uma forma extremamente equilibrada junto com suas partes boas. E você vai perceber... que ninguém é tão bom assim - até porque a comparação não é o caminho. Às vezes quem a gente acredita que seja realmente uma pessoa boa, é aquela que faz coisas incríveis no meio social e chega em casa e é um escroto com a esposa e os filhos. Ou até mesmo o contrário: aquele cara que eu achava que era um escroto acabou de doar não sei quantos mil para uma instituição de crianças sem lar? Não sabia que ele podia fazer esse tipo de coisa. Pois é, ninguém é inteiramente mal ou bom. Mas acredito que podemos ajustar nossos passos no mundo para ferir menos as pessoas e a natureza, sem exatamente deixar também que essas coisas nos firam.

Estar no mundo é uma constante luta entre várias forças. É a busca constante pelo equilíbrio, vai chegar momentos em que você não sabe o que deve fazer, questões morais, ideológicas, relacionais. E de alguma forma você vai ter que descobrir, e até você está perfeito haverão tantos erros. Essa é a maior condição humana que estamos presos - a do erro. Numa sociedade que não tolera erros. Engraçado, mas é a verdade. O caminho para ser uma boa pessoa é o mais espinhoso que já conheci - e eu em estou tentando ser, só estou tentando me conhecer e ser uma versão mais equilibrada de mim mesmo. 


maio 28, 2026 - No comments

Quem se alimenta da sua culpa?

         Toda vez que eu tento, eu caio. A disciplina não é para mim? 


    É com essas palavras que eu começo esse texto, que está inserido numa profunda agonia social que nos leva a duvidar do nosso valor constantemente. E quem atribui valor para nós se não nós mesmos? 

    Depois de um detox de redes sociais advindo de uma crise emocional que tive há alguns meses atrás, me pego dedicando a maior parte das minhas horas para redes sociais, plataformas de vídeos, streamings e todas essas atividades passivas de recompensa rápida. Ao mesmo tempo que consumo isso, passo por diversos conteúdos que me dizem: "se quer a barriga perfeita, é assim que eu faço, conheça o meu método"; "você está fazendo exercício x errado, para fazer certo, baixe meu PDF"; "a viagem perfeita é para tal lugar, basta fazer isso e aquilo", "com quantos anos você descobriu que faz tal coisa errado?", "você precisa ir para show x, y, z - suas bandas preferidas virão todas esse ano para o Brasil". Todas essas coisas me impelem a ação, mas todas as estratégias empregadas nesses posts e na rede social como um todo visam me prender o máximo de horas possíveis e é escrachado como mostram estar realmente fazendo isso. Todas essas coisas me impelem a ação porque eu preciso mudar para ser, para conseguir ser, para conseguir fazer e realizar. Queremos engolir todas as coisas do mundo e não temos dinheiro nem disposição para isso.

    O capitalismo tomou mais uma faceta com a tecnologia. Sua natureza plástica se moldou às redes sociais, que em si, já possuem o propósito de vender mais do que conectar, não importando se precisa afastar as pessoas pra isso. Na verdade, a nossa falta é a locomotiva de todo o sistema. E não existem falhas quando o assunto é apontar as falhas do cidadão, porque a cada necessidade há um mercado para isso. Embora você se exercite, que é o certo a se fazer, você não está fazendo direito. Descobri até que se exercitar uma parte do dia enquanto você permanece sentado trabalhando nos outros turnos é errado. E o pior, isso está cientificamente correto, você é considerado um sedentário ativo. No fim das contas, sua atividade física diária é o suficiente para fortalecer o sistema cardiorrespiratório, força muscular e saúde mental. Mas não é nisso que vão focar, né? Embora você faça terapia, a explosão de mal estar que você sente devido a quantidade de informações consumidas por dia em redes sociais e a dedicação acima do normal ao trabalho farão essas horas de terapia não serem suficientes também. 

    Você está fazendo o que é certo, como manda o script. Você está lutando todos os dias contra si mesmo e a sua mente para tentar ser melhor. Mas isso nunca vai ser suficiente dentro do capitalismo pós-moderno. Assim como o sistema nunca vai ser o suficiente para te valorizar e abarcar suas demandas. Mas quem tem o controle de como pensamos não vai deixar que você pense e fale sobre isso, a única ordem é comprar e gastar. Seu bem estar não é interessante. Sua culpa sim. Por isso, sugiro refletir melhor toda vez que pensar "eu não sou tão bonita assim", ou "eu não sou tão forte assim". Porque os próximos passos depois desse pensamento sempre vão beneficiar quem mais quer te ver mal e quem não vai pagar as contas das suas sessões de terapia depois. Nosso vazio sempre vai ser a fonte de renda de quem está por cima, e quem controla tudo isso nem é a pessoa mais bonita do mundo, provavelmente é um velho branco, feio e careca. Quanto mais você se sentir feio, quanto mais se sentir burro e quanto mais envergonhado você for de si mesmo, mais você serve de alimento. Nada nunca foi por acaso e provavelmente tudo isso que você sente foi debatido e conversado numa mesa em uma sala de algum prédio em algum lugar. 

    É hora de buscar alternativas e estratégias para sobreviver nesse sistema que nos adoece tanto. E nem sempre a resposta é se isolar (na verdade, o isolamento é a própria arma). Podemos nos fazer de filtros, nem tudo pode entrar. Nós, em parte, temos o controle do algoritmo, basta clicar nos três pontinhos e escolher "não tenho interesse nisso". Não precisamos consumir tudo que nos servem. É como quando vamos a um rodízio de pizza: a todo momento inúmeros garçons nos servem com sabores diferentes, se aceitarmos tudo, teremos uma montanha de pizza que nosso estômago não vai conseguir processar. Todo mundo sabe que chega uma hora que temos que recusar as pizzas, pois não aguentamos mais. Acredito que no mundo das ideias isso também deve acontecer. É pelo fato de aceitarmos tudo, que gastamos tanto, nos degradamos tanto e ficamos tão cansados. É por isso que perdemos o sono de noite. Nossa mente enche tal como nossa barriga, mas continuamos aceitando porque não conseguimos lidar com isso com remédios para azia e idas ao banheiro. No campo mental, tudo é uma metáfora: passar mal são as crises emocionais, evacuar é reproduzir falas de outrem (quando não falar merda por aí) e o remédio para azia é comprar.     

    Embora você faça sua 1 hora de academia e isso seja bom para o seu sistema vascular, também precisamos exercitar a saída desse lugar de peão. Isso também é saúde. Questionemos, não sejamos tão facilmente manipuláveis. Vamos nos acumular também de nossa própria ética e decidir o que é bom para nós. Não deixemos isso na mão de outras pessoas. Em outras palavras, não sejamos massa de manobra. Escolha o que você quer fazer com essa tal liberdade.









terça-feira, 25 de novembro de 2025

novembro 25, 2025 - , No comments

Pós-modernidade, capitalismo tardío e pós-verdade epistêmica

Quanto mais eu sei, menos eu sei,

Quando achei que estava chegando perto da verdade

Na verdade eu me afastei.

Mas o que é a realidade, o que é real?

Se o real agora é um eco, ilusório e viral?


Antes duvidar era um gesto inteligente,

questionar o mundo era ser consciente.

Hoje, crer virou trincheira,

e duvidar é ser chamado de tolo na primeira.


Nossas impressões viraram tudo o que temos,

mas são espelhos quebrados do que vemos.

Repetidas milhões de vezes, distorcidas,

manufaturadas, vendidas, consumidas.


E me pergunto:

será que minha própria verdade

não é também miragem, vaidade?


Antes a metafísica brincava com o impossível,

sonhos, pós morte, o invisível.

Agora, toda crença se isola em mim,

um altar pequeno, um começo sem fim.


Duvidar virou ofensa,

pensar virou ameaça,

e a liberdade de expressão é faca

que corta quem nela confia e não disfarça.


Calar-se parece seguro,

num mundo onde tudo é muro,

onde palavras ficam presas

em posts, manchetes, mesas,


alimentando vermes do caos,

que fazem do erro festival,

do tropeço espetáculo,

da dor, capital.


Discutir é inútil, dizem,

consenso é utopia, mentem.

Discordamos sem escuta,

cada opinião vira uma luta.


Cada um embala sua ideia

como um filho de areia,

frágil, mas intocável,

mesmo sendo questionável.


Vivemos a pós-verdade,

a pós-modernidade,

talvez o pós-apocalipse

da própria humanidade.


A filosofia morre em silêncio,

a comunhão no distanciamento.

Imperam os templos do isolamento,

as seitas do ressentimento.


O desespero por algo em que crer

vira porta para quem só quer nos vender,

esmolando espírito e sentido,

no mercado do não vivido.


Capitalismo tardio, ardiloso,

entrelaça-se ao que é sagrado e perigoso,

controla nossos gestos, vontades, crenças,

transforma vidas em mercadorias densas.


Nada é como antes, é verdade,

mas tudo é sombra daquela realidade

que ainda vive nos escombros do que fomos,

um mundo acabado que ainda habitamos.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

abril 02, 2025 - No comments

Uma sociedade feminina criada por "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen



    "Orgulho e Preconceito", um livro de Jane Austen de 1813 e depois transformado em filme por Joe Wright em 2006, foi uma obra que inspirou diversas mulheres durante e após seu lançamento, sendo uma obra que reverberou fortemente na sociedade no período moderno e pós-moderno. 

    Segundo o Jornal da USP, a obra "traz de forma sútil questões sobre a posição da mulher na sociedade, sobre desigualdade de renda e preconceito de classe". Temas relevantes para a sociedade da época e que se mantiveram constantes no período atual pelo incessante conservadorismo que mantêm a mulher em um papel de gênero que está sendo constantemente questionado. Este fato é expressado no papel de Elizabeth Bennet, que se recusa a se casar com qualquer pessoa, sendo levada ao casamento inevitavelmente por meio de uma paixão avassaladora.

    Suas irmãs, no entanto, revelam traços marcantes da época, os quais pregavam que a mulher deveria se casar assim que possível, com uma família importante (de preferência rica). Elas vivam por isso e pensavam somente nisso, uma marca fortíssima do Romantismo. É totalmente plausível dizer que a sociedade atual nunca superou o Romantismo, sendo uma escola literária e artística que foi levada a outros patamares, principalmente para o audiovisual por meio de novelas e filmes. Não só isso, o romantismo foi cristianizado e continua sendo defendido, mesmo que a sociedade atual não consiga mais abarcar tais padrões dentro dos relacionamentos. Agora o que se vê são os relacionamentos sendo taxados pelo tão famoso termo cunhado por Bauman: amor líquido. 

    Em uma sociedade que não consegue superar o romantismo, tão fortemente empurrado guela abaixon por meio da cultura, e ao mesmo tempo não consegue se localizar de forma individual no que se tornou os padrões de relacionamento atual, o heteropessimismo (sentimento de desilusão, constrangimento ou desesperança em relação a relacionamentos heterossexuais) misturado com esses antigos ideias resulta em uma substância perigosa de se digerir. 

    O que é uma sociedade feminina criada por Orgulho e Preconceito? Uma sociedade formada por mulheres que ao mesmo tempo que convergem para a libertação dos papéis de gênero e para a ampliação de formações acadêmicas e inserção no mercado de trabalho (o que consequentemente tende aumentar as rendas das mulheres e a posição em cargos de liderança), ainda se sustenta em ideais amorosos, nos quais se espera um cavalheiro que trará uma paixão avassaladora e mudará os rumos do heteropessimismo que a mulher se encontra. Muitas vezes o heteropessimosmo é uma consequência, mas outras vezes é uma escolha; independente de como a mulher chegou lá, acredito que a maioria das vezes ela não quer estar nesse lugar, afinal, é normal que as pessoas queiram se relacionar. 

    O heteropessimismo é uma via de mão dupla: ao mesmo tempo que aprisiona pela desilusão e pela desesperança, se cria o anseio da evasão. É neste momento, talvez, que ainda se espera pelo Mr. Darcy, o cavalheiro diferente de todos, que mesmo com sua imperfeição, é passível de mudança e que promete o futuro que sempre sonhamos. Penso como seria se o pessimismo nos ensinasse outra coisa e nos tornasse mulheres mais maduras em vez de desistentes. Penso também como seria se as obras (livro ou filme) nos mostrassem como foi o casamento de Elizabeth com Mr. Darcy, já que ela era uma mulher tão destemida e inteligente e ele um homem tão rígido e de poucas palavras. Ela, uma mulher acostumada a brincar e se divertir com suas irmãs, a ser tão útil em casa cuidando dos animais, que sujava as botas e não se importava em andar muito. Que gostava de ler e dançar nos bailes. Ele, um homem rico acostumado a lidar com transações burocráticas, tão conservador com as maneiras de se fazer as coisas, acostumado a ser fechado pela constante solidão que sua riqueza trazia e a sempre estar tão acima dos outros. Penso que talvez o casamento deles não tenha sido tão bom como todas nós que lemos o livro e assistimos o filme gostaríamos. Fica no nosso imaginário o cenário do casamento perfeito que as obras transmitem e não queremos nos questionar o que deve ter sido depois. 

    Fica para as mulheres modernas lidarem com a consequência do "depois". Lidamos com o "depois" dos nossos pais e do nossos próprios. Sucessivos "depois". Porque sempre achamos que encontramos nosso Mr. Darcy, mas aí eles são uns bostas. O "depois" também não leva em conta uma série de fatores, principalmente o fato de que muitas pessoas não conseguem se relacionar com uma pessoa só e existe essa insistência de que somente de olhar para outra pessoa você já está traindo. Então muitas vezes não olhamos para coisas cruciais que estão implícitas em se relacionar com uma pessoa. O problema está em se relacionar com uma pessoa levando na bagagem só a ilusão e muita fé de que vai dar certo. 

    O romantismo trabalha com o impossível, não atoa suas obras mais famosas estavam ligadas a diferenças de classe, idade, esferas sociais e a personagens que se apaixonavam por pessoas já casadas. É nessa impossibilidade que sempre se encontroa o perigo: o objeto amado não é alcançável, o que resulta em morte ou sofrimento; quando é, nos ensina que com pitadas de humilhação, ilusão e grandes doses de esperança, conseguimos o que queremos. No universo feminino as consequências disso são avassaladoras: resulta em relacionamentos tóxicos, violência contra a mulher e feminicídio. Entre outros tipos de abusos que destroem completamente o psicológico da vítima. 

    Isso me leva ao seguinte questionamento: se os antigos padrões romancistas estão caindo por terra diante da constante desilusão que atinge homens e mulheres ao se relacionarem, o que são os relacionamentos hoje? Não podemos, infelizmente, rotular somente como "amor líquido" e não procurar ferramentas que diminuam o nosso sofrer; não podemos também em hipótese alguma tentar retornar aos padrões conservadores que tanto os cristãos valorizam e que aprisionam mais as mulheres do que os homens, valores que, inclusive, são tão defendidos por homens e não seguidos e que mulheres constantemente tentam se subjugar para não serem preteridas. A falácia do casamento perfeito caiu por terra e é normal, para nós mulheres, conhecermos por meio de outras mulheres, como elas estavam em estado de sofrimento antes de acabarem seus casamentos e encontrarem, infelizmente muito tarde, sua libertação e de sentirem que perderam muito tempo de suas vidas.

    Escrevo esse texto em um contexto atual de um relacionamento saudável e não monogâmico, que questiona constantemente as minhas crenças romancistas, ainda mais que fui criada por Jane Austen e por novelas e filmes que muitas vezes nem eram de romance ou de comédia romântica. Penso: num relacionamento que converge contra os padrões romancistas e não me promete o casamento perfeito, mas me instiga a lidar com a realidade de que tanto eu como meu parceiro sentimos atração por outras pessoas, que me instiga a lidar com o real e com o "depois" já no começo, o que espera-se desse relacionamento? É como um eterno futuro branco, apagado, que os filmes nunca me entregaram. Um futuro que o heteropessimismo e o amor líquido nunca me disseram. Que pode haver fim, como pode não haver também. Que em vez de fim, pode haver transformação e libertação, em vez de sofrimento e o constante lidar com o impossível. Como diz uma letra do Incubus "o amor dói, e às vezes é uma dor boa, que faz eu me sentir vivo", penso como é se sentir vivo apenas pelo prazer de ser dentro do amor e não por lidar sempre com dor.

    A não monogamia me oferece coisas que eu sempre quis, mas é um caminho que todos nós estamos tentando criar como alternativa para nos sentirmos vivos. Tento virar a chave da minha cabeça: abandonar o romantismo nada mais é do que abandonar a cultura que estou inserida. Do mesmo jeito que aprendi, posso desaprender. Logo hoje, que conheci meu Mr. Darcy, mais perfeito do que o do livro, não rico, mas da mesma classe que eu; não sério e duro, mas divertido e brincalhão, que me ama, eu, sendo melhor do que Elizabeth Bennet, tão destemida quanto, mas numa sociedade que posso ser mais. Devo abandonar o ciúmes e a crença que criei na minha cabeça de que o casamento deles foi perfeito, assim como o meu seria, sem compartilhar pelo medo de perder, já que enfim o encontrei. Nesse caminho, penso o tanto de coisas que perderia ao abandonar o romantismo, mas depois desse texto, penso como seria bom deixar ir aquilo que aprisiona a mim e outras mulheres e dar lugar ao futuro que eu posso criar. O medo do desconhecido é tão grande, mas acho que tenho mais medo do que já conheço: essa onda infeliz de romantismo que se instalou na sociedade e que só tem um fim, que é a morte - figurativa ou real. 


 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

dezembro 02, 2024 - No comments

"tem um beijo guardado aí?"

 "tem um beijo guardado aí?"

Era o que meu pai dizia toda vez que chegava em casa do trabalho 

Quando eu escutava o som da sua Kombi 77 chegando 

Eu corria para a fresta do portão para confirmar sua chegada 

Era uma festa, pois eu sempre aguardava para ver o que ele tinha trazido 

As vezes ele trazia balinhas 

As vezes era um saco de pastas de dente 

As vezes um saco cheio de sabonetes

E na semana de compras, eu sempre esperava encontrar goiabada, banana e laranja

Pra fazer aquela salada de frutas 

Eu não gostava quando meu pai trazia:

Marrom glacê, abóbora ou doce de figo

Tem muitas coisas que não gostamos que nosso pai faça 

Como não saber se comunicar 

Não saber vibrar nossas vitórias como gostaríamos 

Esconder suas emoções sem nem pensar sobre isso 

Parecer alheio, distante, avulso, frio e, até mesmo, ausente. 

Chega um momento que nosso pai não é mais o herói que achávamos que era 

E embora a sua linguagem de amor seja me deixar segura e alimentada

Não sinto esse amor fluindo pelas minhas veias 

Talvez porque eu tenha te bloqueado na vida real 

E as camadas de decepção não permitem esse amor entrar 

Minha linguagem de amor não é a mesma 

Lembro quando era fácil, quando era natural 

Quando eu te amava somente por você ser você

Agora que eu cresci, as balinhas não são suficientes 

Gostaria que você fosse diferente 

Mas algumas pessoas quando envelhecem 

Acham que não vale a pena mais mudar 

Por isso eu fui embora 

E não sinto mais vontade de voltar