quinta-feira, 28 de maio de 2026

maio 28, 2026 - No comments

O ser humano e a ferida com a sociedade

 "Gostaria de saber o porquê a humanidade vai de mal a pior", vi essa pergunta no chat de uma live sobre O Caminho do Iniciado. Uma pergunta disparada para místicos ou interessados no assunto, sendo a locutora uma pessoa que acredita que a única explicação para isso se encontra apenas em assuntos de cunho espiritual, dada a dificuldade de responder a questão.

Não tenho a intenção de dar uma resposta completamente assertiva à pergunta, mas proponho um caminho para nos aproximarmos do que poderia explicar a decadência  cada vez mais perceptível da humanidade.

É verdade: você está no mundo e quanto mais obtém informações sobre o que está acontecendo por aí, mais horrorizado fica. O grande fluxo de informações que também aumentou depois da globalização dá a impressão de que quanto mais o tempo passa, mais a humanidade acumula um karma irreparável, seja com a natureza ou com Deus, todo mundo sente a responsabilidade nas costas. Você pode sentir por exemplo que não tem feito o bastante para salvar a natureza, pode sentir que nunca consegue fugir de seus pecados, ou de alguma forma tenta se convencer de que você é uma ótima pessoa. Como eu vi um dia, as pessoas culpam a religião por ser o grande fator de degeneração da humanidade preferem dizer "minha religião é ser uma boa pessoa". No fim, intimamente a maioria das pessoas ainda se sentem em divida com os fatores externos ou com sua própria moral. O hacker Elliot, do Mr. Robot, por exemplo, acredita que toda pessoa tem um podre e sempre descobre através dos seus hacks. Toda pessoa ou está contribuindo para maldade do mundo ou está se retirando dela não fazendo nada. E existe aquela pequena parcela comprometida em mudar. 

A verdade é que a barbárie e a violência é intrínseca à humanidade desde os primórdios da civilização. Antes da ética, moral ou regras e leis, tudo era resolvido com morte e violência. "Se você me faz mal, ameaça minha vida, eu tenho o direito de te matar ou te fazer mal de volta." Leis e afins surgem como modo de civilização para conter a barbárie. A própria criação de Deus e sua moral correspondente ao modo de vida cristão não permite que a violência exista, é tido como errado, pecaminoso, você cria divida com Deus e corre o risco de ir para o inferno. Tem um lugar para as pessoas ruins, então seja certo, faça x e você vai para o céu. Faça y e vá para o inferno. 

Com todos os processos civilizatórios a humanidade não pode expressar de forma alguma a violência e a barbárie que já existe nela desde quando éramos semelhantes à animais. 

Você já assistiu o episódio do Expurgo do Rick e Morty no qual eles visitam um planeta que prega a paz mundial e dedicam um dia à barbárie ? Costuma ter violência e morte em massa. A mesma ideia do filme The Purge. Ou aquele experimento artístico que a moça permite que faça o que quiser com ela, ela ficaria parada lá por x horas e o resultado foi algo assustador pelo que fizeram com ela ?

Você já viu notícias de padres estupradores? 

A barbárie, violência ou qualquer coisa que classificamos como "o mundo indo de mal a pior" continua existindo mesmo com qualquer tentativa de empurrar isso pra fora. E estão tentando, realmente estão tentando. Mas muitos já viram que é impossível, e então cria-se formas de velar isso. 

A sensação de estar tudo indo muito mal é porque estamos desvelando isso pelo conhecimento, informação e etc. Muitas pessoas não assistem jornal porque ficam tristes, perturbadas e sem ideia do que fazer com isso. Cria-se empatia com vítimas, medo de ser a vítima, medo de alguém querido ser a vítima. 

Diante da repressão da violência, um ato de violência é visto como punível com violência de volta. Quando alguém querido é vítima, queremos que o opressor pague pela mesma moeda. Gritamos por justiça e o máximo que chega a ser justiça é ele ser preso, mas no íntimo desejamos tudo de ruim, a morte e as mais penosas situações. 

Isso é uma expressão da barbárie novamente, a que todos estão tentando evitar. Raras, muito raras são as pessoas que vão desejar que a pessoa se liberte do seu demônio e aceite o "amor de deus" em seu coração. 

Vide o que fizeram com o Lázaro quando o encontraram, muitas pessoas sentiram empatia pelas vítimas ou sentiram muito medo. Morte na certa, porque era o mínimo que ele merecia. Consultei muitas pessoas e ouvi delas que se sentiram estranhas ao ver o corpo desumanizado do cara sendo carregado como se fosse um pacote de bosta. Mas não puderam fazer nada ante a sua estranheza porque a maioria das pessoas estavam certas de que o correto era desumaniza-lo mesmo. À ele foi atribuído toda a maldade do ser humano, chagaram a acreditar que ele fazia parte de algum culto do que se chama pejorativamente de "macumba", revelando claramente o que a sociedade considera como mal ou diabólico: religiões de matriz africana. Não só isso, você viu que atacaram ferozmente um cara parecido com o Lázaro e não era ele? 

De qualquer maneira, ele não é alguém a ser defendido, mas explica claramente como a sociedade só espera um bode expiatório surgir para derramar tudo aquilo que eles passaram tempo demais reprimindo. Posso citar também a moça que foi morta por acusação de bruxaria e ela era inocente. Não houve tempo de passar por um julgamento. E se o cara morto, não fosse o Lázaro? Como a sociedade carregaria essa culpa?

Eu acho que já provei meu ponto: em qualquer oportunidade as pessoas liberam seus demônios, se sentem justificadas, logo não precisam pagar as contas com Deus ou com qualquer ideia de bondade que exista nela. 

JUSTIFICATIVA. Isso ocorre em quase todos os casos de grandes barbáries humanas: nazismo, caça às Bruxas, terrorismo, ditatura, perseguição religiosa, roubo, assassinato.

A sociedade moderna já não se preocupa em esconder a barbárie, ela só precisa fazer parte de um grupo de crenças que justifique a violência e a torne aceitável. Isso sempre existiu, é porque hoje está escrachado. 

E é isso, a barbárie é isso. Ela existe. Mas não demos um lugar pra ela, ela simplesmente não está incluída nos planos de deus. 

Diferente de muitas culturas antigas, em que divindades representavam aspectos humanos às vezes perturbadores. 

E então partimos para o ponto da ferida que o ser humano carrega em relação à sociedade. A de que ele tem que pagar pelo mundo ser assim enquanto ele está "tentando ser uma pessoa boa." A sensação de não saber o que fazer e de que ele está condenado a viver em um mundo violento e terrível. Ele se reconhece como eterno pecador e escuta sempre que TODOS pecam e que a sérias chances de ele ir pro inferno. Sério, falam isso para criancinhas; elas sentem medo de qualquer coisa a levarem para o inferno.

Mas você já virou e observou a maldade e a violência dentro de você? O que você faz com ela? Espera uma oportunidade para expressá-las sem culpa por ter uma justificativa? Quando aquela pessoa errou com você, você se sente no direito de condená-la aos piores infernos ou a abençoa para que ela melhore e nunca mais fira ninguém?

Você deseja que ela repita todos os erros com a outra pessoa que ela vier a se relacionar só para que tudo em volta dela seja desgraça e ela nunca mais seja feliz? Você torce pela involução das pessoas que te cercam por motivos competitivos? Você se sente tão desgraçado que torce pela infelicidade dos outros? A felicidade dos outros te provoca inveja? Sensação de injustiça? Mesmo que não queira e esteja tentando fazer de tudo para esses sentimentos sujos irem embora e afirma, superficialmente, que "deseja o bem", sendo que no fundo ainda se sente injustiçado?


INJUSTIÇA. JUSTIFICATIVA.


Parabéns, você está percebendo que você é um SER HUMANO. 

E como ser humano, ir de encontro à sua sombra é inevitável em algum momento da vida. Ora, talvez você nunca tenha nem ouvido falar disso, na sua infância você deve ter sido ensinado a reprimir sua sombra ou punido por demonstrar. Faz parte de aprender a absorver a moral da sociedade que já foi estabelecida muito antes de você nascer. Mas não, isso não é uma justificativa para deixar o ego dominar e expressar suas merdas quando é conveniente e dizer depois que não teve controle. De qualquer jeito você vai ter que pagar por isso também quando vim as consequências.


Então se você fica se questionando porquê o mundo vai de mal a pior, não tem nada que você possa fazer para arrancar a maldade do planeta, nem se você fosse deus, você estaria conseguindo fazer isso sem matar toda a humanidade, então que deus bom vc seria?


Já viu aquela frase "seja a mudança que espera ver no mundo". Então, parece clichê, mas é verdade. O mais aproximado de mudar o mundo que você pode fazer é mudar a si mesmo e tentar promover alguma mudança na sua comunidade. Muita gente tentando fazer isso cria seitas que difundem seus ideais tortos que eles acreditam que o mundo todo devia seguir. Então realmente a única esperança é o autoconhecimento e a ligação com princípios mais elevados. Em outras palavras, buscar ser bom e dizer "minha religião é ser uma pessoa boa" ainda não é o suficiente. Lidar com as partes mais obscuras de você talvez seja o caminho para se chegar a uma certa "bondade". E ainda sim, quando você atingir esse estado, provavelmente você não vai se considerar uma pessoa boa. Porque você vai estar ciente de todas as suas partes ruins, e vai ter que lidar com elas de uma forma extremamente equilibrada junto com suas partes boas. E você vai perceber... que ninguém é tão bom assim - até porque a comparação não é o caminho. Às vezes quem a gente acredita que seja realmente uma pessoa boa, é aquela que faz coisas incríveis no meio social e chega em casa e é um escroto com a esposa e os filhos. Ou até mesmo o contrário: aquele cara que eu achava que era um escroto acabou de doar não sei quantos mil para uma instituição de crianças sem lar? Não sabia que ele podia fazer esse tipo de coisa. Pois é, ninguém é inteiramente mal ou bom. Mas acredito que podemos ajustar nossos passos no mundo para ferir menos as pessoas e a natureza, sem exatamente deixar também que essas coisas nos firam.

Estar no mundo é uma constante luta entre várias forças. É a busca constante pelo equilíbrio, vai chegar momentos em que você não sabe o que deve fazer, questões morais, ideológicas, relacionais. E de alguma forma você vai ter que descobrir, e até você está perfeito haverão tantos erros. Essa é a maior condição humana que estamos presos - a do erro. Numa sociedade que não tolera erros. Engraçado, mas é a verdade. O caminho para ser uma boa pessoa é o mais espinhoso que já conheci - e eu em estou tentando ser, só estou tentando me conhecer e ser uma versão mais equilibrada de mim mesmo. 


maio 28, 2026 - No comments

Quem se alimenta da sua culpa?

         Toda vez que eu tento, eu caio. A disciplina não é para mim? 


    É com essas palavras que eu começo esse texto, que está inserido numa profunda agonia social que nos leva a duvidar do nosso valor constantemente. E quem atribui valor para nós se não nós mesmos? 

    Depois de um detox de redes sociais advindo de uma crise emocional que tive há alguns meses atrás, me pego dedicando a maior parte das minhas horas para redes sociais, plataformas de vídeos, streamings e todas essas atividades passivas de recompensa rápida. Ao mesmo tempo que consumo isso, passo por diversos conteúdos que me dizem: "se quer a barriga perfeita, é assim que eu faço, conheça o meu método"; "você está fazendo exercício x errado, para fazer certo, baixe meu PDF"; "a viagem perfeita é para tal lugar, basta fazer isso e aquilo", "com quantos anos você descobriu que faz tal coisa errado?", "você precisa ir para show x, y, z - suas bandas preferidas virão todas esse ano para o Brasil". Todas essas coisas me impelem a ação, mas todas as estratégias empregadas nesses posts e na rede social como um todo visam me prender o máximo de horas possíveis e é escrachado como mostram estar realmente fazendo isso. Todas essas coisas me impelem a ação porque eu preciso mudar para ser, para conseguir ser, para conseguir fazer e realizar. Queremos engolir todas as coisas do mundo e não temos dinheiro nem disposição para isso.

    O capitalismo tomou mais uma faceta com a tecnologia. Sua natureza plástica se moldou às redes sociais, que em si, já possuem o propósito de vender mais do que conectar, não importando se precisa afastar as pessoas pra isso. Na verdade, a nossa falta é a locomotiva de todo o sistema. E não existem falhas quando o assunto é apontar as falhas do cidadão, porque a cada necessidade há um mercado para isso. Embora você se exercite, que é o certo a se fazer, você não está fazendo direito. Descobri até que se exercitar uma parte do dia enquanto você permanece sentado trabalhando nos outros turnos é errado. E o pior, isso está cientificamente correto, você é considerado um sedentário ativo. No fim das contas, sua atividade física diária é o suficiente para fortalecer o sistema cardiorrespiratório, força muscular e saúde mental. Mas não é nisso que vão focar, né? Embora você faça terapia, a explosão de mal estar que você sente devido a quantidade de informações consumidas por dia em redes sociais e a dedicação acima do normal ao trabalho farão essas horas de terapia não serem suficientes também. 

    Você está fazendo o que é certo, como manda o script. Você está lutando todos os dias contra si mesmo e a sua mente para tentar ser melhor. Mas isso nunca vai ser suficiente dentro do capitalismo pós-moderno. Assim como o sistema nunca vai ser o suficiente para te valorizar e abarcar suas demandas. Mas quem tem o controle de como pensamos não vai deixar que você pense e fale sobre isso, a única ordem é comprar e gastar. Seu bem estar não é interessante. Sua culpa sim. Por isso, sugiro refletir melhor toda vez que pensar "eu não sou tão bonita assim", ou "eu não sou tão forte assim". Porque os próximos passos depois desse pensamento sempre vão beneficiar quem mais quer te ver mal e quem não vai pagar as contas das suas sessões de terapia depois. Nosso vazio sempre vai ser a fonte de renda de quem está por cima, e quem controla tudo isso nem é a pessoa mais bonita do mundo, provavelmente é um velho branco, feio e careca. Quanto mais você se sentir feio, quanto mais se sentir burro e quanto mais envergonhado você for de si mesmo, mais você serve de alimento. Nada nunca foi por acaso e provavelmente tudo isso que você sente foi debatido e conversado numa mesa em uma sala de algum prédio em algum lugar. 

    É hora de buscar alternativas e estratégias para sobreviver nesse sistema que nos adoece tanto. E nem sempre a resposta é se isolar (na verdade, o isolamento é a própria arma). Podemos nos fazer de filtros, nem tudo pode entrar. Nós, em parte, temos o controle do algoritmo, basta clicar nos três pontinhos e escolher "não tenho interesse nisso". Não precisamos consumir tudo que nos servem. É como quando vamos a um rodízio de pizza: a todo momento inúmeros garçons nos servem com sabores diferentes, se aceitarmos tudo, teremos uma montanha de pizza que nosso estômago não vai conseguir processar. Todo mundo sabe que chega uma hora que temos que recusar as pizzas, pois não aguentamos mais. Acredito que no mundo das ideias isso também deve acontecer. É pelo fato de aceitarmos tudo, que gastamos tanto, nos degradamos tanto e ficamos tão cansados. É por isso que perdemos o sono de noite. Nossa mente enche tal como nossa barriga, mas continuamos aceitando porque não conseguimos lidar com isso com remédios para azia e idas ao banheiro. No campo mental, tudo é uma metáfora: passar mal são as crises emocionais, evacuar é reproduzir falas de outrem (quando não falar merda por aí) e o remédio para azia é comprar.     

    Embora você faça sua 1 hora de academia e isso seja bom para o seu sistema vascular, também precisamos exercitar a saída desse lugar de peão. Isso também é saúde. Questionemos, não sejamos tão facilmente manipuláveis. Vamos nos acumular também de nossa própria ética e decidir o que é bom para nós. Não deixemos isso na mão de outras pessoas. Em outras palavras, não sejamos massa de manobra. Escolha o que você quer fazer com essa tal liberdade.