quinta-feira, 28 de maio de 2026

maio 28, 2026 - No comments

Quem se alimenta da sua culpa?

         Toda vez que eu tento, eu caio. A disciplina não é para mim? 


    É com essas palavras que eu começo esse texto, que está inserido numa profunda agonia social que nos leva a duvidar do nosso valor constantemente. E quem atribui valor para nós se não nós mesmos? 

    Depois de um detox de redes sociais advindo de uma crise emocional que tive há alguns meses atrás, me pego dedicando a maior parte das minhas horas para redes sociais, plataformas de vídeos, streamings e todas essas atividades passivas de recompensa rápida. Ao mesmo tempo que consumo isso, passo por diversos conteúdos que me dizem: "se quer a barriga perfeita, é assim que eu faço, conheça o meu método"; "você está fazendo exercício x errado, para fazer certo, baixe meu PDF"; "a viagem perfeita é para tal lugar, basta fazer isso e aquilo", "com quantos anos você descobriu que faz tal coisa errado?", "você precisa ir para show x, y, z - suas bandas preferidas virão todas esse ano para o Brasil". Todas essas coisas me impelem a ação, mas todas as estratégias empregadas nesses posts e na rede social como um todo visam me prender o máximo de horas possíveis e é escrachado como mostram estar realmente fazendo isso. Todas essas coisas me impelem a ação porque eu preciso mudar para ser, para conseguir ser, para conseguir fazer e realizar. Queremos engolir todas as coisas do mundo e não temos dinheiro nem disposição para isso.

    O capitalismo tomou mais uma faceta com a tecnologia. Sua natureza plástica se moldou às redes sociais, que em si, já possuem o propósito de vender mais do que conectar, não importando se precisa afastar as pessoas pra isso. Na verdade, a nossa falta é a locomotiva de todo o sistema. E não existem falhas quando o assunto é apontar as falhas do cidadão, porque a cada necessidade há um mercado para isso. Embora você se exercite, que é o certo a se fazer, você não está fazendo direito. Descobri até que se exercitar uma parte do dia enquanto você permanece sentado trabalhando nos outros turnos é errado. E o pior, isso está cientificamente correto, você é considerado um sedentário ativo. No fim das contas, sua atividade física diária é o suficiente para fortalecer o sistema cardiorrespiratório, força muscular e saúde mental. Mas não é nisso que vão focar, né? Embora você faça terapia, a explosão de mal estar que você sente devido a quantidade de informações consumidas por dia em redes sociais e a dedicação acima do normal ao trabalho farão essas horas de terapia não serem suficientes também. 

    Você está fazendo o que é certo, como manda o script. Você está lutando todos os dias contra si mesmo e a sua mente para tentar ser melhor. Mas isso nunca vai ser suficiente dentro do capitalismo pós-moderno. Assim como o sistema nunca vai ser o suficiente para te valorizar e abarcar suas demandas. Mas quem tem o controle de como pensamos não vai deixar que você pense e fale sobre isso, a única ordem é comprar e gastar. Seu bem estar não é interessante. Sua culpa sim. Por isso, sugiro refletir melhor toda vez que pensar "eu não sou tão bonita assim", ou "eu não sou tão forte assim". Porque os próximos passos depois desse pensamento sempre vão beneficiar quem mais quer te ver mal e quem não vai pagar as contas das suas sessões de terapia depois. Nosso vazio sempre vai ser a fonte de renda de quem está por cima, e quem controla tudo isso nem é a pessoa mais bonita do mundo, provavelmente é um velho branco, feio e careca. Quanto mais você se sentir feio, quanto mais se sentir burro e quanto mais envergonhado você for de si mesmo, mais você serve de alimento. Nada nunca foi por acaso e provavelmente tudo isso que você sente foi debatido e conversado numa mesa em uma sala de algum prédio em algum lugar. 

    É hora de buscar alternativas e estratégias para sobreviver nesse sistema que nos adoece tanto. E nem sempre a resposta é se isolar (na verdade, o isolamento é a própria arma). Podemos nos fazer de filtros, nem tudo pode entrar. Nós, em parte, temos o controle do algoritmo, basta clicar nos três pontinhos e escolher "não tenho interesse nisso". Não precisamos consumir tudo que nos servem. É como quando vamos a um rodízio de pizza: a todo momento inúmeros garçons nos servem com sabores diferentes, se aceitarmos tudo, teremos uma montanha de pizza que nosso estômago não vai conseguir processar. Todo mundo sabe que chega uma hora que temos que recusar as pizzas, pois não aguentamos mais. Acredito que no mundo das ideias isso também deve acontecer. É pelo fato de aceitarmos tudo, que gastamos tanto, nos degradamos tanto e ficamos tão cansados. É por isso que perdemos o sono de noite. Nossa mente enche tal como nossa barriga, mas continuamos aceitando porque não conseguimos lidar com isso com remédios para azia e idas ao banheiro. No campo mental, tudo é uma metáfora: passar mal são as crises emocionais, evacuar é reproduzir falas de outrem (quando não falar merda por aí) e o remédio para azia é comprar.     

    Embora você faça sua 1 hora de academia e isso seja bom para o seu sistema vascular, também precisamos exercitar a saída desse lugar de peão. Isso também é saúde. Questionemos, não sejamos tão facilmente manipuláveis. Vamos nos acumular também de nossa própria ética e decidir o que é bom para nós. Não deixemos isso na mão de outras pessoas. Em outras palavras, não sejamos massa de manobra. Escolha o que você quer fazer com essa tal liberdade.









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